A influência da consciência fonológica na aprendizagem da leitura e escrita
Vera Santos, Terapeuta da Fala no Espaço Crescer • 4 de março de 2026

A linguagem consiste num sistema partilhado de símbolos e de regras que permite às pessoas comunicar as suas ideias. Trata-se de um código socialmente construído, que atribui significado ao que pensamos e dizemos. 

A linguagem é constituída por múltiplas componentes que funcionam de forma integrada. 

Estas organizam-se em três grandes níveis: a forma (engloba os domínios da fonologia, da morfologia e da sintaxe, responsáveis pela organização dos sons, das palavras e das frases), o conteúdo (relacionado com o domínio da semântica, ou seja, com o significado das palavras e das mensagens) e o uso (associado ao domínio da pragmática, que inclui as regras que regulam a utilização da linguagem nas interações sociais) (Franco et al., 2003; Leitão, 2013).


Entre os diferentes domínios da linguagem, o domínio fonológico assume um papel relevante no desenvolvimento da linguagem oral e da linguagem escrita, sobretudo, no momento de aprendizagem da leitura e da escrita. É neste domínio que se insere a consciência fonológica, que será explorada adiante.


O que é, afinal, a consciência fonológica? 

A consciência fonológica é uma competência cognitiva e metalinguística complexa que diz respeito à capacidade de pensar, refletir e atuar conscientemente sobre os sons da linguagem oral, ou seja, de prestar atenção aos sons da fala e pensar sobre eles de forma intencional. 

Relaciona-se com a forma como as palavras são constituídas do ponto de vista sonoro, não com o seu significado. Implica compreender que a fala, embora seja percebida como um contínuo sonoro, pode ser dividida em unidades mais pequenas: as frases podem ser separadas em palavras, as palavras em sílabas e as sílabas nos fonemas (sons) que as constituem. 


Além disso, esta competência envolve a capacidade de reconhecer, discriminar, isolar e manipular intencionalmente esses elementos sonoros, através de ações como identificar, juntar, separar, inverter ou retirar unidades fonológicas, por exemplo, sílabas ou sons (Carreira, 2021; Ramalho et al., 2023; Rios, 2009).


Considerando as várias unidades fonológicas, a consciência fonológica pode dividir-se em cinco níveis distintos:

  • Consciência de palavra (A criança é capaz de isolar as palavras dentro das frases);

p. ex. Os|cravos|são|vermelhos.

  • Consciência silábica (A criança é capaz de isolar as sílabas dentro das palavras);

p. ex. cra-vos

  • Consciência intrassilábica (A criança é capaz de isolar as unidades intrassilábicas dentro das sílabas);

p. ex. cr.a-v.os

  • Consciência fonémica (A criança é capaz de isolar os fonemas);

p. ex. c.r.a.v.o.s

  • Consciência de acento (A criança é capaz de identificar a sílaba tónica das palavras);

p. ex. cra-vos

(Carreira, 2021; Duarte, 2008; Ferraz et al., 2018)

Como se desenvolve a consciência fonológica?


A consciência fonológica começa a desenvolver-se precocemente e de forma progressiva, acompanhando o desenvolvimento da criança e a sua crescente capacidade para reconhecer e distinguir as diferentes unidades fonológicas, enquanto unidades identificáveis. 

Este desenvolvimento ocorre, tendencialmente, das unidades fonológicas maiores para as menores e evolui, sobretudo, ao longo do ensino pré-escolar e dos primeiros anos de escolaridade formal, período importante para a consolidação desta competência (Rios, 2009).


Entre os três e os quatro anos observa-se um aumento do interesse pelas rimas, através de jogos lúdicos que envolvem canções, sons e palavras. Por volta dos quatro anos, a criança tende a apresentar maior facilidade na realização de tarefas de consciência silábica, comparativamente a tarefas de consciência fonémica. Entre os quatro e os cinco anos, a criança começa a compreender que a sílaba pode ser dividida em unidades mais pequenas, revelando algum sucesso na identificação de componentes intrassilábicos. Geralmente, a partir dos cinco anos surgem capacidades metafonológicas relacionadas com a análise dos sons da fala. Por volta dos seis anos, observa-se um domínio quase completo da segmentação silábica, mas ainda podem persistir dificuldades em tarefas de consciência fonémica (Ferraz et al., 2018).


Mesmo quando a criança já demonstra capacidade para refletir de forma intencional sobre as unidades fonológicas o seu desempenho dependerá de diversos fatores, nomeadamente, a idade, o grau de desenvolvimento das competências metacognitivas e linguísticas, o nível de escolarização e o tipo de tarefa que lhe é solicitada, que pode ser mais ou menos complexa (Rios, 2009).

Qual a importância da consciência fonológica na aprendizagem da leitura e da escrita?


O sistema de escrita da língua portuguesa é de base alfabética, o que significa que as letras representam os sons da fala. 

Para aprender a ler e a escrever, a criança precisa de compreender que as palavras podem ser divididas em unidades mais pequenas e que existe uma relação entre os sons da fala e as letras que os representam, de acordo com regras próprias. Esta compreensão do princípio alfabético depende do desenvolvimento da consciência fonológica, pois implica a capacidade de reconhecer, segmentar e manipular os sons da fala (Leitão, 2013).


A investigação tem demonstrado que a consciência fonológica desempenha um papel fundamental na aprendizagem da leitura e da escrita, existindo uma relação de influência mútua entre ambas. Diversos estudos demonstram que crianças em idade pré-escolar que apresentam um bom desempenho em tarefas de consciência fonológica tendem a tornar-se leitores mais competentes. 

Por outro lado, crianças que evidenciam níveis mais baixos desta competência, antes da entrada no 1.º ciclo do ensino básico, apresentam maior risco de manifestar dificuldades no processo de alfabetização (Leitão, 2009).

Como estimular as competências de consciência fonológica da criança? 


A consciência fonológica assume um papel determinante na aprendizagem da leitura e da escrita. Assim, a estimulação desta competência metalinguística deve iniciar-se antes da entrada no 1.º ciclo do ensino básico, nomeadamente, durante o ensino pré-escolar. 

De acordo com a literatura, é neste período que devem ser promovidas as competências linguísticas fundamentais para a aprendizagem da leitura e da escrita, coincidindo com a fase em que ocorre um maior desenvolvimento das competências de consciência fonológica.


Em seguida, apresentam-se algumas sugestões de tarefas simples que poderá realizar com a criança para estimular a consciência fonológica no dia a dia:

  • Consciência da palavra
  • Contar as palavras de uma frase
    Diga uma frase (p. ex.: “O cão dorme”) e peça à criança que conte quantas palavras ouviu.
  • Dar um passo por cada palavra
    A criança avança um passo sempre que ouve uma palavra numa frase dita pelo adulto.


  • Consciência intrassilábica – rimas e aliterações
  • Jogos de rimas
    Perguntar se duas palavras rimam ou não (p. ex. mão/pão) ou pedir à criança que diga outra palavra que rime com a palavra ouvida.
  • Completar rimas em canções ou lengalengas
    Parar antes da última palavra e deixar a criança completar a canção ou lengalenga.


  • Consciência silábica
  • Bater palmas para contar as sílabas

Parar Dizer uma palavra e pedir à criança para bater palmas para cada sílaba da mesma (p. ex. bo-la, ca-dei-ra).

  • Identificar qual a sílaba inicial
    Perguntar à criança com que sílaba começa uma palavra.


  • Consciência fonémica
  • Identificar o som inicial ou final
    Perguntar à criança qual é o primeiro ou último som de uma palavra.
  • Juntar sons
    Dizer os sons de uma palavra separadamente (p. ex. /p/ – /a/ – /t/ – /o/) e pedir à criança que forme a palavra.


  • Consciência de acento
  • Onde está a sílaba mais “forte” 

         Dizer palavras e pedir à criança para saltar quando ouvir a sílaba mais forte (dar maior entoação a essa

         sílaba, correspondente à sílaba tónica).

  • Jogos rítmicos com palavras

         Repetir palavras com diferentes ritmos ou entoações e perguntar à criança que palavra ouviu mais rápido

         ou mais devagar, mais alto ou mais baixo.

         

(Freitas et al., 2007; Rombert, 2015; Silva, 2021)

A que sinais de alerta deve estar atento?


É importante lembrar que o desenvolvimento da consciência fonológica é variável de criança para criança e depende de múltiplos fatores. No entanto, a deteção atempada de dificuldades neste âmbito será fundamental para identificar quais são as fragilidades da criança que podem necessitar de uma estimulação adequada, ou mesmo de intervenção especializada. 

A deteção precoce destas dificuldades poderá prevenir futuras complicações no processo de aprendizagem da leitura e da escrita.


Neste sentido, destacam-se alguns sinais que podem ser indicativos de dificuldades de consciência fonológica:


Idade pré-escolar

  • Pouco interesse ou evitamento na realização de jogos que envolvam palavras, sílabas e sons;
  • Dificuldade em repetir canções e lengalengas;
  • Dificuldade em identificar ou produzir rimas, mesmo após exposição repetida a jogos e canções que as incluam;
  • Dificuldade em segmentar palavras em sílabas;
  • Dificuldade em identificar a sílaba ou o som inicial das palavras;
  • Dificuldade em juntar sílabas para formar palavras simples.


Idade escolar

  • Dificuldade em identificar o som inicial ou final das palavras;
  • Dificuldade em segmentar palavras em sons, ou em juntar sons para formar palavras;
  • Dificuldade em tarefas de manipulação fonémica;
  • Dificuldade em associar os sons às letras correspondentes;
  • Leitura lenta, silabada e com esforço excessivo;
  • Erros frequentes na leitura e na escrita de palavras (p. ex. trocas de sons na leitura ou de letras na escrita).

Quando procurar ajuda de um Terapeuta da Fala?


Se identifica alguns dos sinais de alerta supramencionados, a procura de uma avaliação em Terapia da Fala pode fazer a diferença. 

Caso sejam identificadas fragilidades, uma intervenção precoce, idealmente em idade pré-escolar, será fundamental para prevenir ou minimizar futuras dificuldades no processo formal de aprendizagem da leitura e da escrita. 

O acompanhamento adequado e atempado, aliado ao envolvimento da família e do contexto educativo, permitirá apoiar o desenvolvimento da criança de forma positiva, promovendo aprendizagens ajustadas às suas necessidades e contribuindo para um percurso escolar mais tranquilo e confiante.

Bibliografia


  • Carreira, P. (2021). Desenvolvimento da Consciência Fonológica no 1º ano do 1º CEB. [Dissertação de Mestrado, Instituto Politécnico de Lisboa]. Repositório Científico do Instituto Politécnico de Lisboa. http://hdl.handle.net/10400.21/14539
  • Duarte, I. (2008). O conhecimento da língua: Desenvolver a consciência linguística. Ministério da Educação, Direção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular.a
  • Ferraz, I., Pocinho, M., & Fernandes, T. (2018). Programa de treino da consciência fonológica. Universidade da Madeira.
  • Franco, M. G., Rosa, M. J., & Gil, T. M. (2003). Comunicação, linguagem e fala. In Domínio da comunicação, linguagem e fala: Perturbações específicas de linguagem em contexto escolar – Fundamentos (Cap. 1). Ministério da Educação, Departamento da Educação Básica.
  • Freitas, M. J., Alves, D., & Costa, T. (2007). O conhecimento da língua: Desenvolver a consciência fonológica. Ministério da Educação, Direção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular.
  • Leitão, G. (2013). Caracterização do nível de consciência fonológica em crianças de idade escolar - contributo para a validação de um instrumento de avaliação. [Dissertação de Mestrado, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas]. Repositório da Universidade Nova de Lisboa. http://hdl.handle.net/10362/11292
  • Ramalho, A.M., Pereira, T., Baptista, A.C., Reis, T., Rodrigues, S., Santos, C., Dias, A., Martins, A., Maia, F. & Jesus, Â. M. (2023). Avaliação em Fonologia. In D.C. Alves, P. Correia, S. Cruz, J. Fonseca, S. Ibrahim, I. Lopes, M. Lousada, P. Oliveira & C. Pinto (Eds.), Compendium de Terapia da Fala - Avaliar e Intervir com Evidência (pp. 197–240). Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala.A
  • Rios, A. (2009). Competências Fonológicas na Transição do Pré-escolar para o 1º Ciclo do Ensino Básico. [Dissertação de Mestrado, Universidade de Aveiro]. Repositório Institucional da Universidade de Aveiro. http://hdl.handle.net/10773/2069
  • Rombert, J. (2015). Leitura e Escrita. In O gato comeu-te a língua? (2aed, pp. 213–240). A esfera dos livros.
  • Silva, A. (2021). Consciência Fonológica e Conhecimento das Letras In R. A. Alves & I. Leite (Eds.), Alfabetização Baseada na Ciência: Manual do Curso ABC (pp. 219 - 243).
Exemplos de pesquisa: #psicologia, #terapiadafala, ansiedade, voz
Por Cátia Mendes, Psicóloga Clínica no Espaço Crescer 22 de abril de 2026
A Psicologia Clínica e a Neuropsicologia
Por Zélia Fernandes, Terapeuta da Fala no Espaço Crescer 7 de janeiro de 2026
Cerca de 70% das crianças norte-americanas com Dislexia (diagnóstico de Perturbação Específica de Aprendizagem) apresentam dificuldades no Processamento Auditivo (PA). Estes são dados do Centro do Processamento Auditivo (Auditory Processing Center), instituição sediada nos Estados Unidos que estuda o PA, que poderão servir de reflexão para a realidade europeia e, especificamente, para a portuguesa. Neste texto explicaremos o que é o PA, as Perturbações do PA (PPA) e como podem influenciar as aprendizagens das crianças, nomeadamente as escolares. Em Portugal, estudos apontam para que 5% das crianças portuguesas, entre os 10 e os 13 anos de idade, possuam diagnóstico de PPA, referindo que estas alterações estão fortemente associadas a dificuldades de aprendizagem escolar. Se considerarmos as restantes idades da população pediátrica em idade escolar, haverá muitas crianças sem diagnóstico formal atribuído mas que sofrem diariamente com alterações do Processamento Auditivo.
Por Artur Correia, Musicoterapeuta no Espaço Crescer 21 de maio de 2025
A musicoterapia tem um impacto significativo na saúde mental, contribuindo para o tratamento do stress e da ansiedade, para a depressão, regulação emocional, a autoestima e a autoexpressão.
Ver Mais