A influência do Processamento Auditivo nas dificuldades de aprendizagem escolares
Zélia Fernandes, Terapeuta da Fala no Espaço Crescer • 7 de janeiro de 2026

Cerca de 70% das crianças norte-americanas com Dislexia (diagnóstico de Perturbação Específica de Aprendizagem) apresentam dificuldades no Processamento Auditivo (PA). Estes são dados do Centro do Processamento Auditivo (Auditory Processing Center), instituição sediada nos Estados Unidos que estuda o PA, que poderão servir de reflexão para a realidade europeia e, especificamente, para a portuguesa.


Neste texto explicaremos o que é o PA, as Perturbações do PA (PPA) e como podem influenciar as aprendizagens das crianças, nomeadamente as escolares.


Em Portugal, estudos apontam para que 5% das crianças portuguesas, entre os 10 e os 13 anos de idade, possuam diagnóstico de PPA, referindo que estas alterações estão fortemente associadas a dificuldades de aprendizagem escolar.


Se considerarmos as restantes idades da população pediátrica em idade escolar, haverá muitas crianças sem diagnóstico formal atribuído mas que sofrem diariamente com alterações do Processamento Auditivo.

(Re)conhece esta criança?


Matilde sempre foi muito expressiva. Com 3 anos já dizia frases, tinha um vocabulário vasto, interagia com todos, era sorridente e brincava com os outros meninos. No entanto, parecia que às vezes não compreendia o que o adulto lhe dizia, fazendo uma expressão facial de questionamento. Na escolinha, não conseguia lembrar-se das músicas e das histórias que a educadora partilhava. Falava muito, mas por vezes trocava sons nas palavras ou produzia frases confusas.


Entrou para a escola e no 1º ano parecia correr tudo dentro da normalidade. Por vezes, a Matilde estava exausta ao fim do dia, queixava-se até de dores de cabeça, e quando chegava a casa já não tinha energia para o T.P.C.


Ao longo do 2º ano, a Matilde foi evidenciando dificuldades em acompanhar o ritmo da turma, os resultados diminuíram, o cansaço aumentou e os pais e a professora começaram a ficar preocupados e sobretudo espantados.


Como é que esta criança encantadora, que começou a falar cedo, comunicativa e feliz, mostrava agora sinais de estar perdida, cansada e frustrada?


Esta história é-lhe familiar? Tem alguma criança na sua família ou escola em que reveja estas características da Matilde? Nós, Terapeutas da Fala, conhecemos diariamente crianças com estas dificuldades e pais angustiados, que não sabem o que fazer para ajudar os seus filhos.


A Matilde poderá ter um diagnóstico de PPA, com repercussões diretas nas suas aprendizagens escolares.

O que é o Processamento Auditivo?


 Após o som, seja do ambiente ou da fala, ser detetado e captado pelo ouvido externo é transportado até ao cérebro em forma de impulso elétrico, passando por um complexo e orquestrado sistema auditivo, onde é discriminado, reconhecido, organizado, compreendido e memorizado segundo alguns critérios – a esta análise auditiva dos sons no cérebro dá-se o nome de processamento auditivo.


O objetivo é que esse conjunto de sons seja sistematicamente conectado a outros previamente já estabelecidos, ao longo da vida, sobretudo nos primeiros anos, e também seja mais facilmente recuperado quando solicitado numa situação comunicativa, seja ela oral ou escrita, de compreensão ou expressão, com o intuito de fornecer uma comunicação eficaz, sem esforço.


Uma desorganização dos sons no cérebro, sobretudo os da fala, originará uma dificuldade em compreender o que ouvimos, com repercussões na fala, na linguagem, na leitura/escrita, ou seja, influenciando a comunicação com os outros e, consequentemente, a aprendizagem .

Vários são os fatores que podem provocar alterações no PA. Salientam-se a prematuridade, as intercorrências pré, peri e pós-natais, as otites frequentes na primeira infância, a falta de estimulação auditiva adequada, a presença de outras perturbações associadas, tais como alterações na linguagem, dislexia e défice de atenção/hiperatividade.


Quando o PA está afetado, o comportamento da criança (observa-se o mesmo em adultos) apresenta sinais de alerta. Aqui ficam alguns deles:

  • Agitação ou distração excessivas
  • Falta de atenção e foco
  • Dificuldade em compreender variadas entoações na comunicação, como piadas e frases de duplo sentido
  • Dificuldade em ouvir os outros em ambientes ruidosos
  • Dificuldade em compreender ordens e regras
  • Dificuldade em expressar-se
  • Confundir-se ao relatar um facto ou uma história
  • Trocar sons na fala
  • Trocar letras na escrita: inverter letras (“par-pra”, por exemplo) ou trocar letras com sons semelhantes (p/b, t/d, f/v, m/n, por exemplo)
  • Produzir erros gramaticais na oralidade ou na escrita
  • Esquecer o que ouviu ou leu
  • Dificuldades gerais na alfabetização
  • Baixo rendimento escolar.

O que pode fazer para saber se o seu filho tem uma Perturbação do PA?


Se houver queixas, em primeiro lugar a criança deverá ser avaliada clinicamente por um médico otorrinolaringologista pediátrico, a fim de observar a presença de cera ou de outros detritos no ouvido externo, bem como observar a existência eventual de líquido no ouvido médio (sinal de otite, por exemplo), a fim de serem aferidas e descartadas outras hipóteses diagnósticas. Posteriormente, este médico encaminha para um audiologista, preferencialmente com experiência no atendimento a crianças, que realizará exames complementares de diagnóstico, tais como audiograma e timpanograma, a fim de completar a avaliação da audição periférica.


Se estes exames não evidenciarem alterações, poder-se-á colocar a hipótese de existirem comprometimentos no processamento auditivo, uma perturbação que pode ser reversível se intervencionada por profissionais devidamente qualificados. Neste caso, poder-se-á realizar um rastreio com um Terapeuta da Fala ou uma avaliação formal com um audiologista, devendo ambos ter formação e experiência na área.


É de referir que, para que seja dado o diagnóstico de PPA, a criança não poderá ter qualquer outra causa sensorial ou cognitiva que possa explicar as alterações no PA.


O que fazer no dia a dia para ajudar crianças em idade escolar com Perturbação do Processamento Auditivo?


Além do treino auditivo a realizar com um técnico especializado, sempre que possível e na transmissão verbal de informações importantes, o adulto deve:

  • colocar a criança perto do professor (a menos de 2 metros)
  • colocar a criança longe de fontes de ruído (portas, janelas, colegas faladores e/ou agitados)
  • limitar ruídos e distrações visuais
  • chamar a atenção da criança antes de iniciar a fala e mantê-la de frente para o adulto
  • falar de forma clara, com prosódia, velocidade reduzida e intensidade ligeiramente aumentada
  • utilizar frases curtas, com palavras simples
  • repetir o que se disse ou reformular, se necessário
  • pedir para a criança explicar pelas suas palavras (ou que evidencie de outra forma) o que acabou de ouvir, para garantir que compreendeu a informação ouvida
  • permitir que a criança faça pausas entre tarefas intensivas de escuta
  • sentar a criança junto de um colega que o possa ajudar a completar a informação auditiva “perdida”
  • fornecer acomodações especiais (ir para outra sala, por exemplo) na execução de tarefas complexas e momentos de avaliação
  • fornecer ajudas complementares, como instruções visuais e escritas
  • antecipar conteúdos pela via visual e escrita, para preparar a criança para a receção da informação pela via auditiva.


Estas sugestões devem ser adaptadas de acordo com a forma do professor transmitir a sua informação (por exemplo, se se desloca pela sala de aula ou se se posiciona essencialmente junto ao quadro).


Estas mesmas sugestões podem também ser utilizadas pelos pais em casa, aquando, por exemplo, da execução dos trabalhos de casa e do tempo dedicado ao estudo.


Já tinha ouvido falar do tema?


Na nossa prática clínica temos constatado que pais, médicos e professores sabem pouco ou desconhecem de todo o tema, que muitas vezes está “mascarado” por outro diagnóstico devido à falta de informação, apesar de a Classificação Internacional de Doenças – 11, criada pela Organização Mundial da Saúde, já reconhecer a PPA como uma incapacidade com entidade clínica.


Conhecer a causa é saber como mudar e melhorar a vida e o futuro destas crianças.


No consultório Espaço Crescer fazemos triagens ao Processamento Auditivo, realizadas por Terapeutas da Fala com formação especializada e experiência na temática.


Havendo alterações, poder-se-á encaminhar para avaliação formal com audiologista, para confirmação do diagnóstico.


Caso se verifiquem disfunções no PA, é totalmente recomendável iniciar-se treino auditivo a fim de reverter-se, tanto quanto possível, os défices observados.


Salientamos que a comunidade científica defende que, havendo paralelamente compromisso na fala e/ou na linguagem oral ou escrita, o treino auditivo deverá ser feito por Terapeutas da Fala com experiência em perturbação do processamento auditivo.

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